IGREJA DE SANTA BÁRBARA

Perto do porto das Manadas, Caminho de Baixo, foi levantado o mais belo monumento da ilha de S. Jorge.

Com uma só torre de forma quadrangular rematada em cúpula, onde se encontram três sinos de belo som. A fachada desta Igreja , voltada a Oeste, está ornamentada com uma simples mas bela decoração de pedra basáltica à volta da porta principal e da janela de côro sobre a qual se encontra um nicho com a imagem da Padroeira, Santa Bárbara.

Os antigos desta freguesia contam que este Monumento Nacional foi construído com pedras arrancadas nas rochas da Pedreira e trazidas pelo Caminho da Pedreira, Caminho da Ermida e Caminho da Igreja até à beira-mar.

 

O mais antigo documento que se conhece a respeito deste templo é a Carta Régia do Rei D. Sebastião, dada na Vila de Sintra, a 30 de Junho de 1568, na qual eram estabelecidas novas côngruas para os eclesiásticos. Ficou então o Pároco de Santa Bárbara das Manadas a receber 20 mil réis anuais.

No interior há uma nave cujas paredes brancas são decoradas com pinturas sobre madeira. “ O Domingo de Ramos” e “ O Lava-pés ” estão situadas no lado do Evangelho, entre as grades em madeira torneada do côro e do púlpito, uma magnífica obra de talha decorada com folhas de Acanto em tons azuis e rosa.

Na parede em frente fica a única janela da nave e também três quadros: “ A Fuga para o Egipto”, “ Santa Ana e a Virgem” e “ S. Joaquim”.

No Transepto, sobre a porta da sacristia norte, está o retrato de Santo Inácio de Loyola que se diz ter o rosto do pintor italiano que esteve encarregado da decoração desta maravilha da Arte Barroca. Em frente, está o quadro representando S. Francisco de Borja com uma oração implorando protecção contra a fome e a guerra.

Do lado do Evangelho, fica o altar de S. Miguel, com retábulo pintado sobre tela e 2 pequenas imagens, Sto. Amaro e Sta. Luzia, que se supõe serem obras do artista conhecido por Mestre de S. Jorge.

O altar de Nossa Senhora da Conceição, Padroeira de Portugal; tem um Sacrário com anjos esculpidos e uma curiosa decoração de figuras humanas trajadas de verde e vermelho. No retábulo esculpido em madeira há também um pelicano dando comida aos filhos. Esta ave, segundo a lenda, alimentava a sua prole com a carne que arrancava do peito e por isso a tradição Cristã a adoptou como símbolo da Eucaristia.

 A Concha de Vieira, presente em toda a decoração, acompanhou como bandeira, Peregrinações, Cruzadas e Descobrimentos. É o símbolo da procura do Caminho , da Esperança de chegar ao Paraíso.

Do lado da Epístola, o Altar de Nossa Senhora do Carmo, cuja imagem parece ser a mais antiga desta Igreja, onde existiu uma Confraria do Carmo, é o mais belo de todo o templo.

O outro altar é o do Senhor Jesus dos Aflitos cuja imagem crucificada acompanhou o povo por todos os caminhos e atalhos da Freguesia durante todo o tempo da crise sísmica de Fevereiro de 1964. Nessa altura o Pároco, Francisco da Terra Faria, propôs à população reunida à volta da Igreja de Sta. Bárbara, para implorar a misericórdia de Deus, fazer uma procissão com esta imagem. Com a terra a tremer dia e noite sob os seus pés, os habitantes das Manadas iam todas as tardes com o Senhor em procissão de preces e voltavam para suas casas mais tranquilos apesar do cansaço da caminhada e da recitação em voz alta das orações.

Em testemunho da gratidão do povo das Manadas, a cruz do Senhor ostenta desde então decorações de prata e a imagem tem pregos e Coroa de Espinhos do mesmo metal. Esculpidas em relevo, no retábulo do altar, estão as figuras da Virgem e do Apóstolo João, aos pés da Cruz. O Sacrifício que aqui se encontra tem na porta a figura  de Cristo Ressuscitado.

O Arco da Capela sobre o qual se podem admirar as armas de Portugal e a antiga Coroa Real, encaixadas sobre o monograma Jesuítico IHS, tendo um rechonchudo querubim de cada lado, está fechado por grades em madeira torneada que foram colocadas após a visita de Jorge da Silveira Souto Mayor, Beneficiado Confirmado na Matriz de Nossa Senhora do Rosário da Vila do Topo, que deixou ordem para que “ as lâmpadas dos altares de Nossa Senhora da Conceição e do Senhor Jesus estejam de agora em diante acesas e no Arco da capela-mor sejam colocadas grades bem feitas para que ninguém aí entre sem que seja necessário”. Esta informação foi tirada da primeira página do “Livro das Visitações”, manuscrito com data de 15 de Abril de 1751, encontrado pelos Jovens Naturalistas EM Junho de 1983 durante a limpeza dos documentos da Igreja.

Sobre as grades do transepto, Amaro Pereira de Lemos, Vigário de Sto. Amaro, ordenou a colocação de dois confessionários, a 21 de Abril de 1825.

O tecto da nave é em madeira de cedro, como aliás toda a decoração, o que faz com que dentro desta Igreja se respire o perfume suave desta árvore característica da flora local

Entre as pinturas decorativas podem-se admirar três magníficos medalhões, esculpidos em relevo, representando Sta. Bárbara, o Espírito Santo sob a forma de uma Pomba Branca e S. Jorge a cavalo matando o dragão.

Na Capela-Mor, o tecto foi recoberto com três filas de quadros pintados sobre madeira com os Mistérios do Rosário, pouco antes do terramoto de 9 de Julho de 1757 que destruiu quase todas as Igrejas da ilha sem causar grande dano a esta de Sta. Bárbara.

As paredes estão revestidas, na parte inferior, por 6 painéis de azulejos azuis e brancos que contam a vida e a morte de Sta. Bárbara, uma jovem nascida em Nicomédia, hoje Izmit, nas margens do Mar da Marmara, nos fins do séc. III da nossa era. Ela era filha única de um rico e nobre habitante desta cidade do Império Romano chamado Dióscoro.

Com receio de deixar a filha no meio da sociedade corrupta daquele tempo, Dióscoro decidiu fechá-la numa torre durante uma das suas viagens fora da região.

Na sua solidão, Bárbara tomou contacto com os ensinamentos de Orígenes e fez-se Cristã.

Quando Dióscono voltou da viagem notou que a torre tinha 3 janelas em vez das 2 que ele mandara abrir. Bárbara explicou-lhe que isso era o símbolo da sua nova Fé o que deixou seu pai furioso porque os Cristãos eram considerados os piores inimigos do Império  e da Lei.

Desesperado, seu pai denunciou-a ao Prefeito Marcius que a mandou torturar sem que ela mudasse de ideias. Então condenou-a à morte por degolação.

Levada pelas ruas de Nicomédia por entre os gritos de raiva da multidão, Bárbara foi conduzida para fora da cidade onde o seu próprio pai executou a sentença. Quando a cabeça de Bárbara rolou pelo chão um trovão fez tremer os céus e um relâmpago, atravessando o ar, fez cair por terra o corpo sem vida de Dióscoro.

Por isso Sta. Bárbara é conhecida como protectora contra os relâmpagos e considerada a Padroeira dos artilheiros, dos mineiros e de todos quantos trabalham com fogo.

Do lado da Epístola há um nicho com a imagem de Nossa Senhora das Lágrimas, a única com vestes de tecido: um vestido roxo e um manto azul. Trata-se de um busto em madeira com braços articulados que permitem vestir a imagem colocada sobre uma armação de madeira. Este não é o primitivo porque os jovens Naturalistas encontraram, durante o Verão de 1985, um outro busto bem mais antigo, num quarto de arrumação.

Na parte superior das paredes há pinturas sobre tela representando os Quatro Evangelistas, a Ressurreição de Cristo, a Assunção da Virgem Maria, a Instituição da eucaristia e o Nascimento de Jesus.

Esta última foi parcialmente destruída por pedras que caíram da parede sul durante o terramoto do 1º de janeiro de 1980. Restaurada sob a orientação de Emanuel Félix, poeta açoreano e também técnico do Centro de Restauro de Arte do Museu de angra, encontra-se ainda neste Centro esperando o seu acabamento. As outras pinturas receberam igualmente tratamento para fazer reviver os pigmentos, durante os anos 80, a cargo de técnico Gregório Melo.

A bela lâmpada de prata não foi poupada pela catástrofe referida mas, graças ao então Presidente da Junta de Freguesia, Amaro Ferreira da Silva, foi enviada ao continente para ser restaurada.

Esta maravilhosa peça de arte é o resultado de uma ordem dada por António Machado Pereira, Vigário da Matriz de Velas, em 28 de Setembro de 1798, na qual está escrito: “seja reformada a lâmpada da capela-mor obra muito antiga mas com prata bastante para que se faça mais peso ajuntando-lhe as 6 libras e 7 oitavas que pesam as moedas de prata que ficam na arca de três chaves”.

As duas janelas desta capela-mor eram frestas estreitas que foram alargadas “ em ordem a introduzir mais luz” depois da visita feita pelo Cónego Serpa em 23 de Julho de 1792.

Num soberbo retábulo por detrás do Altar-Mor, em azul e ouro , está  a imagem da Padroeira Sta. Bárbara, tendo a ladeá-la S. Pedro, do lado do evangelho e S. Sebastião do lado da Epístola.

Duas outras imagens, Nossa Senhora de Rosário e Nossa Senhora das Dores, também estão nesta Capela. Em tempos existiram aqui Confrarias a elas dedicadas, datando os estatutos da primeira do ano de 1780.   

   Montando guarda de ambos os lados do Altar-Mor, cuja parte inferior foi transformada em Sepulcro para a imagem de Senhor Morto, estão águias douradas esculpidas em alto relevo. A rainha das aves simboliza a vitória da Fé Cristã contra todas as perseguições.

O Sacrário folheado a ouro, como grande parte da restante decoração , tem fechadura e dobradiças em prata. Parece que todo o edifício foi concebido para chamar a atenção para este Sacrário, cuja porta tem um coração esculpido no centro. Nas tardes de Verão, o sol poente, descendo pelo lado Norte do Faial , entra pela janela do côro e incide ponto da decoração. Então todo o templo fica iluminado por uma única luz, a que irradia do coração do Sacrário.

O altar voltado para a Assembleia foi levantado no Verão de 1984 pelos artesãos da fundação Ricardo Espírito Santo Silva, de Lisboa, que estiveram aqui desde 1982, chefiados pelo Mestre entalhador Manuel Abrantes Nunes, para restaurarem a decoração em madeira.

Sob a orientação destes técnicos, um grupo de jovens estudantes, membros do CJN desta freguesia, aprendem a amar e a cuidar deste monumento.

Graças aos seus conselhos foi possível levar a cabo todas as tarefas já mencionadas e também reunir os inúmeros bocados de madeira em que tinham ficado o órgão, feito por Sebastião Gomes de Lemos em 1851 e a balaustrada do respectivo coreto, feito pelos marceneiros Manuel da Cunha Leite e Mariano da Silva Brasil de Borba, natural desta freguesia que celebrou a sua Missa Nova na Ermida de Santo Cristo da Fajã das Almas, no dia de Nossa Senhora de Lourdes de ano de 1889.

A artística mesa que mostra os símbolos do martírio de Sta. Bárbara é um maravilhoso trabalho de embutidos em madeira de diferentes cores datada de 1799.

Um armário embutido na parede e dois arquibancos completam o mobiliário da sacristia.

A sacristia sul dá acesso ao Púlpito, ao Côro e à Sineira. Espera-se que o seu espaço interior seja arranjado de forma a lá serem colocadas as imagens adquiridas para esta igreja durante este século:” Sagrado Coração de Jesus, Nossa Senhora da Conceição, Nossa Senhora de Fátima, Santa Bárbara, Santa Teresinha, S. José, S. Pedro, S. Sebastião, S. Jorge e Santo Antão.